Entrevista com o autor

O Labirinto de Mil Corações Mudos dá vazão, principalmente, aos sentimentos humanos?
Sim. Existe a complexa relação entre Licaeus e Sofia que, antes de se encontrarem,  devem confrontar  dúvidas, medos e paixões.  No decorrer das horas ainda acompanhamos a história de Baltazar, um homem sobrepujado pela culpa;  Cipriano, vítima do próprio destino;  Senhor Lao, a inteligência refém do orgulho;  Saboni e Magdala a resignação frente às dificuldades.

Por falar em decorrer das horas, os capítulos são chamados de horas, por quê?

Uma alusão aos “livros de horas” medievais. Esse livros eram ricamente ilustrados com iluminuras e traziam orações e pensamentos para serem lidos em determinadas horas do dia. Confeccionados individualmente faziam com que a pessoa se recolhesse para seus momentos de leitura, momentos em que buscaria respostas em seus próprios mistérios.

As paixões parecem ser algo muito presente em seu livro…
Paixões são forças criativas ou devastadoras, depende do uso que se faça delas. Não devem ser escravizadas pela razão, tampouco liberadas sem controle. Existe uma busca pela compreensão de que as paixões são muito mais do que fontes de prazer ou angústia, alegrias ou tristezas, elas são também o caminho para a libertação.

O Labirinto é um lugar deslocado de seu tempo, foi construído, entre tantos sentimentos, pelo medo. De que seus personagens têm medo?
Da morte, do silêncio, do vazio, do tempo congelado em um para sempre, do tempo revelado em um nunca mais. Talvez, no fundo, seja o medo do esquecimento. Baltazar compreende ao fim que a morte vem coroar-lhe a velhice e libertá-lo, absolvê-lo das culpas. Mas, compreender não significa necessariamente aceitar. Cipriano tão recolhido em seu próprio mundo acaba por se desligar de tudo que é exterior, assim, quando alcança alguns pequenos lampejos de razão, não tem coragem de mudar os caminhos tomados, a opressão da culpa que carrega soterra a si mesmo. Já, Licaeus, talvez, tenha medo dos vivos e dos mortos, das paixões dessas pessoas que podem escravizá-lo.

O primeiro capítulo deixa o leitor no ar tentando entender a verdadeira natureza de Licaeus, por que o livro não segue uma narrativa linear?
Licaeus e também Sofia se separam de suas naturezas. Eles devem esperar, renunciar, essa espera é sua sobrevivência. O leitor vai construindo seu entendimento da realidade, ele é convidado a fazer parte desse fragmento do tempo, longe da passagem das horas. Os capítulos, chamados de horas, remetem ao avanço inexorável do tempo, assim o leitor sabe que, a medida que os véus vão sendo levantados, ele não pode mais fugir ao entendimento, como os personagens que em determinado momento serão forçados a confrontar a própria realidade.
Qual então o tempo dominante nas páginas que descrevem a história do Labirinto de Mil Corações Mudos?
Não temos um tempo cronológico, mas antes um tempo de memória, marcado muito mais pelas sensações despertadas do que pela passagens das horas. Metáforas, diálogos, mitos alegorias são os recursos de linguagem necessários para dar vida aos personagens do labirinto. Imagens e analogias que criam o pensamento vivo, palpável repleto de medos e paixões nesse tempo tão particular.

O sono tão presente na narrativa é uma espécie de morte?
O sono paralisa o corpo mas não o pensamento. Ele esfria a alma dos personagens, eles não podem resistir ao mal que se insinua no interior de seus corpos, que lhes rouba o poder de lutar, mas , ainda assim , não desistem. E por que não dizer que todo sono é uma espécie de morte em que dormimos para uma vida e acordamos para outra?

Um dos personagens mutila o próprio corpo, é um reflexo desse caminho da culpa para o perdão?
João o revelador nos mostra os efeitos da interiorização da culpa. Suas paixões criam deuses e demônios que subvertem a razão, mas a culpa tem uma trajetória a cumprir e somente depois de cumprido esse trajeto os fantasmas poderão ser exorcizados. Exorcizar o medo que lhe enlouquece a alma.

O Labirinto é uma construção física, mas também é uma metáfora, que outras simbologias o livro aborda?
Ele trata das relações humanas, das buscas por reconhecimento, da necessidade de se sentir amado, do peso que a culpa pode significar em nossas vidas, dos erros que podem ser perdoados, do tempo finito ou infinito dos sonhos. Trata, sobretudo, da perseverança, da força com a qual nos dedicamos a atingir nossos objetivos. Isso contado em uma história que atravessa os anos, que reúne culturas distintas e que fala, em síntese, o que é possível fazer com o tempo de uma vida.

labirinto de mil corações mudos

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